Na noite fria, chuvosa e cinzenta de ontem, precisei sair de casa para visitar uma amiga. Quando eu estava voltando de lá, peguei o ônibus, que estava vazio, e sentei em um banco perto do cobrador.
O cara, com pouco mais de 40 anos, ficou olhando para mim fixamente. Quando eu o encarava para tentar descobrir o motivo de tanta curiosidade, ele desviava os olhos. Pensei que o homem estivesse se perguntando: “Onde essa menina acha que vai com tantas blusas e com essa touca horrorosa?”. Mas não.
Depois de me observar por alguns minutos, resmungou. “Tá frio, né?” Como ele falou muito baixo, eu fingi que o papo não era comigo. Mas ele não desistiu e falou a mesma frase novamente.
Eu respondi: “É.”
O cobrador não se contentou e continuou o monólogo. “Percebeu que eu fiquei te olhando? É que você se parece com uma minha amiga Julia, que mora em Guarulhos.”
Eu: “Ah, é?”
Ele: “É, morei lá por muitos anos…”
Logo saquei que o cara estava querendo conversar com alguém e contar sua vida toda. Por incrível que pareça, pessoas estranhas fazem isso comigo quase todos os dias, quando estou no ônibus ou esperando o latão no terminal.
Depois de contar sobre sua trajetória de Guarulhos a Jundiaí, ele me perguntou o que eu fazia da vida. Eu contei (aff, contei da minha vida para o cobrador!).
Como o papo fluiu, perguntei se ele havia nascido em São Paulo. “Não, sou nordestino. Nasci em Alagoas.” Confesso que já desconfiava por causa do sotaque.
Isso atiçou a minha curiosidade e me fez lembrar de muita coisa. O cara nasceu lá e veio pra SP com um tio aos 16 anos em busca de emprego. “Agradeço essa terra todos os dias. Se eu continuasse no nordeste, morreria de fome.”
A história dele é idêntica a muitas que eu ouvi no ano passado, por causa do meu TCC. Eu e minhas amigas produzimos um documentário chamado ‘Enraizados’, que trata da migração de nordestinos para Jundiaí e Várzea Paulista. Acho que não contei nada sobre isso no blog porque eu estava esgotada e não queria nem ouvir falar sobre esse assunto.
No fim das contas, eu contei a ele sobre o doc e prometi uma cópia. Ele ficou feliz e agradeceu. “Se eu não estiver no ônibus, manda entregar para o Ceará.”